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domingo, 20 de maio de 2012

Rio+ 20




O Brasil, mais precisamente o Rio de Janeiro, será a sede da  Rio+20, no mês de junho deste 2012, cerca de 20 anos após a Eco92.

Mas o que é a Rio + 20

 A Rio + 20 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - é uma conferência da ONU que reunirá líderes do mundo todo para discutir meios de transformar o planeta em um lugar melhor para se viver.
Neste evento estarão reunidos líderes dos 193 Estados que fazem parte da ONU, bem como representantes de vários setores da Organização.
Discutirão como podemos transformar o planeta em um lugar melhor para viver, inclusive para as futuras gerações.  

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Abaixo transcrevo, na íntegra, texto que achei muito importante para reflexão:



A marca humana


Autor(es): Peter Kareiva, Robert Lalasz e Michelle Marvier
Revista Veja - 18/06/2012


 Rio+20 – Idéias
 Países do mundo inteiro criam áreas de preservação para evitar a extinção de espécies e ecossistemas, mas a simples delimitação de espaços não trará de volta um mundo intocado, sem as intervenções do homem. O problema ambiental só será solucionado por meio da integração entre a natureza selvagem e as paisagens modernas
Segundo os seus próprios critérios, a conservação ambiental está fracassando. A biodiversidade na Terra segue em rápido declínio. Continuamos a perder florestas na África, Ásia e América Latina. Há tão poucos tigres e macacos selvagens que, muito em breve, se as tendências atuais se mantiverem, esses animais estarão extintos. Direto ao ponto: perdemos muito mais lugares e espécies do que salvamos. Ironicamente, a conservação está sendo nocauteada na luta para proteger a natureza a despeito de vencer uma de suas batalhas mais duramente travadas – o embate pela criação de parques e áreas selvagens. Ao mesmo tempo que espécies e lugares selvagens desaparecem em um ritmo crescente, o número de áreas protegidas ao redor do mundo cresce de maneira impressionante. Saltou de menos de 10000 em 1950 para mais de 100000 em 2009. No mundo todo, países delimitam áreas onde o desenvolvimento humano é restrito, na tentativa de preservá-las. Os últimos cálculos estimam que 13% da parte terrestre do planeta está protegida, uma porção maior do que toda a América do Sul.
 Historicamente, a conservação ambiental se deu no âmbito regional. Os grupos conservacionistas dedicaram-se a salvar lugares específicos, como o Parque Nacional de Yosemite e o Grand Canyon, ambos nos Estados Unidos, ou a manejar sistemas ecológicos muito limitados, como mananciais e bosques. Já as ambições mais recentes beiram o irreal. Por exemplo: interromper o desmatamento da Amazônia, uma área quase do tamanho do território continental dos Estados Unidos, é possível? É ao menos necessário? É impossível impedir qualquer atividade econômica que precise desmatar pontualmente certas áreas da floresta. Cercar o Vale do Yosemite não é o mesmo que tentar cercar a Amazônia. Assim como os Estados Unidos foram pontilhados de barragens, tiveram sua madeira explorada e foram recortados por estradas, é provável que boa parte da Amazônia também o seja.
O conservacionismo não pode prometer um retorno a paisagens intocadas, pré-humanas. A humanidade já transformou profundamente o planeta e continuará a fazer isso. O que o conservacionismo pode almejar, em vez disso, é uma nova visão do planeta. Um planeta em que a natureza – florestas, manguezais, espécies diversas e outros ecossistemas antigos – coexista em meio à ampla variedade de paisagens modernas e humanas. Para que isso aconteça, os conservacionistas terão de dispensar suas concepções românticas de natureza, parques e áreas selvagens, ideias que nunca foram apoiadas pela boa ciência da conservação, e forjar uma visão mais otimista para o ser humano.
 No início do século XIX, muitos pensadores americanos argumentaram que a maior utilidade da natureza é ser uma fonte de renovação espiritual solitária, um refúgio da vida moderna, um lugar para desfrutar a solidão e interagir com Deus. "Para sentir a solidão, um homem precisa se afastar tanto de seu quarto quanto da sociedade", escreveu o ensaísta e poeta Ralph Waldo Emerson em "Natureza". No ensaio de Emerson, as cidades e o desenvolvimento humano eram retratados como ameaças a esses idílios que permitiam a transcendência – apesar de serem os escritores, em sua maioria, intelectuais urbanos. O romancista Nathaniel Hawthorne reclamou amargamente de escutar, de sua casa de campo, o apito do trem, mas dependia desse transporte moderno para ir e vir de seu éden particular. Henry David Thoreau ficou famoso por elogiar sua própria autossuficiência, vivendo em uma pequena cabana afastada em harmonia com o mundo natural. Na verdade, Thoreau morava perto o bastante da cidade para receber convidados frequentes e até fazer com que sua mãe lavasse as suas roupas.
 Sob a invocação do valor espiritual e transcendental da natureza intocada, existe um argumento em defesa do uso das paisagens para certos fins e não para outros. Trilhas para caminhada, em vez de estradas; estações científicas, em vez de madeireiras; hotéis para ecoturistas, em vez de lares. Ao removermos comunidades instaladas há muito tempo e as substituirmos por hotéis, extirparmos espécies indesejadas e estimularmos a permanência de outras mais desejáveis, perfurarmos poços para regar a floresta e impormos o manejo de fogo que combina controle e incêndios planejados, criamos parques que não são muito diferentes da Disneylândia.
A conservação é amplamente vista como a prática inocente de comprar lugares tidos como especiais e ameaçados pelo desenvolvimento humano. Nas últimas três décadas, porém, o movimento conservacionista revelou-se bem controverso, principalmente por expulsar populações indígenas de suas terras a fim de criar mais parques e reservas. A proteção moderna de supostas áreas selvagens acarreta, com frequência, a realocação de um grande número de pessoas. Na maioria dos casos, sem que haja uma compensação justa pelas casas, áreas de caça e terras agrícolas perdidas.
Em 2009, o jornalista Mark Dowie, hoje professor de jornalismo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, publicou um artigo intitulado "Os refugiados da conservação". Escreveu Dowie: "Cerca de metade das terras escolhidas para proteção pela elite conservacionista no último século era ocupada ou usada regularmente por povos indígenas. Nas Américas, esse número passa de 80%". A estimativa varia de 5 milhões a dezenas de milhões de pessoas realocadas no século passado em prol da conservação. Um outro estudo, da Universidade Cornell, revelou que 14 milhões de indivíduos foram desalojados em nome da conservação só na África nesse período.
 No início dos anos 90, grupos indígenas denunciaram tais expulsões em fóruns mundiais, como a Cúpula da Terra das Nações Unidas, durante a Eco 92, no Rio. Em resposta, os grupos conservacionistas prometeram respeitar e trabalhar em conjunto com as comunidades que viviam nas áreas protegidas ou em seus arredores. Nos cinco anos que se seguiram à Eco 92, as organizações realmente trabalharam com organizações locais, incluindo os povos indígenas, no desenvolvimento sustentável e na chamada "conservação baseada na comunidade". Lindas fotos de povos indígenas começaram a ornamentar os elegantes relatórios anuais e as brochuras para levantamento de recursos dos grupos conservacionistas. Apesar disso, em 2004, os conflitos aumentaram. No Fórum Internacional de Mapeamento Indígena, no mesmo ano, os 200 representantes dos índios apresentaram uma declaração assinada por todos com os seguintes dizeres: "As atividades de organizações conservacionistas representam, agora, a maior ameaça à integridade das terras indígenas".
 Em muitos lugares do mundo, os parques se tornaram uma maldição para o conservacionismo. Tome-se como exemplo a iniciativa, em 1982, de criar um parque nacional em Mburo, Uganda. Em nome da preservação da vida selvagem, o governo expulsou de forma violenta milhares de homens, mulheres e crianças das regiões do entorno, sem indenização. A expulsão mostrou-se autodestrutiva. Em 1986, um novo governo encorajou esses refugiados da conservação a voltar para seus lares. Rapidamente, eles trucidaram a vida selvagem. Em retaliação, também destruíram as instalações do parque ali alojado.
Na Indonésia, todas as principais ONGs conservacionistas tentaram, de forma contundente, deter a onda de desmatamento e o declínio de espécies emblemáticas, como o orangotango. O aumento do número de áreas protegidas foi resultado dessas ações. No entanto, ao visitar o país, é difícil perceber qual área é protegida ou não, pois em muitas delas há uma intensa exploração de madeira. Análises quantitativas de taxas de desmatamento, baseadas em imagens de satélite, revelaram que a perda de florestas é muito maior dentro das áreas sob proteção da Indonésia do que nas florestas do país manejadas por comunidades locais para exploração sustentável de madeira.
 Organizações conservacionistas respondem a esses exemplos argumentando que o deslocamento de pessoas é coisa do passado. Elas ressaltam ter aprendido com os antigos erros. Hoje, a maioria das ONGs conservacionistas tem políticas de melhores práticas direcionadas a proteger os direitos das comunidades locais. Essas ONGs estão também cada vez mais, empregando cientistas sociais e antropólogos para incorporar os povos indígenas em suas estratégias de conservação.
 Mas o conservacionismo permanecerá controverso enquanto continuar tão estreitamente focado na criação de parques e áreas protegidas e afirmar, frequentemente, de modo injusto, que as populações locais não são capazes de tomar conta de suas terras. Em seu livro Colapso, de 2005, o geógrafo Jared Diamond escreveu que os habitantes da Ilha de Páscoa retornaram ao canibalismo depois de cortar as últimas árvores do local – uma parábola do uso míope dos recursos naturais pela humanidade. Mas Diamond entendeu mal a história. Foi o efeito combinado de uma espécie não nativa (o rato polinésio, que come sementes de árvores) e de ataques de europeus em busca de escravos que destruiu o povo da Ilha de Páscoa, não o manejo equivocado da natureza.
 Quando o conservacionismo se transformou em um empreendimento global, nas décadas de 70 e 80, a justificativa do movimento para salvar a natureza mudou. Valores espirituais e estéticos foram substituídos pela biodiversidade. A natureza foi descrita como primeva, frágil e sob risco por causa de muito abuso por parte da humanidade. Sem dúvida, há consequências da utilização da natureza para a mineração, a exploração de madeira, a agricultura intensiva e o desenvolvimento urbano, provocando o desaparecimento de espécies-chave ou de ecossistemas. Ecologistas e conservacionistas, no entanto, exageraram em suas considerações sobre a fragilidade da natureza ao argumentar, com frequência, que o desaparecimento de uma única espécie pode causar o colapso de um ecossistema inteiro. Também há exagero na ideia de que a perda de parte da biodiversidade pode provocar a destruição da Terra. Da expansão da agricultura em regiões de floresta úmida à alteração de cursos d"água, tudo foi pintado como uma ameaça ao delicado funcionamento interno do ecossistema planetário.
 O tema da fragilidade data da década de 60, quando a bióloga americana Rachel Carson descreveu, de forma lamuriosa, no livro Primavera Silenciosa, a delicada teia da vida. Na obra, ela alertava sobre como a perturbação do intrincado equilíbrio da natureza poderia resultar em consequências desastrosas. O ex-vice-presidente americano Al Gore defendeu posição semelhante em 1992, no livro Terra em Equilíbrio. Em 2005, a Avaliação dos Ecossistemas do Milênio advertiu que, embora a expansão da agricultura e outras formas de desenvolvimento tivessem sido extremamente positivas para os pobres do mundo, a degradação dos ecossistemas estava, ao mesmo tempo, criando riscos de colapso ambiental.
O problema do conservacionismo é que os dados não sustentam a ideia de uma natureza frágil em risco de colapso. Os ecologistas agora sabem que o desaparecimento de uma espécie não leva à extinção de nenhuma outra, muito menos de todas as outras no mesmo ecossistema. Em muitas circunstâncias, a morte de uma espécie antes abundante pode não resultar em consequência alguma para o funcionamento de um ecossistema. A castanheira americana, antes a árvore dominante no leste da América do Norte, foi extinta por uma praga estrangeira. De forma surpreendente, o ecossistema florestal não foi afetado. O pombo-passageiro, antes tão abundante que seus bandos escureciam o céu, foi extinto, junto com incontáveis outras espécies, da vaca-marinha de Steller ao dodô, sem consequências catastróficas nem mesmo efeitos mensuráveis.
Essas histórias de resistência não são exemplos isolados. Uma revisão abrangente da literatura científica identificou 240 estudos de ecossistemas depois de sofrerem distúrbios como desmatamento, mineração, vazamento de petróleo e outros tipos de poluentes. Em 72% dos casos acompanhados, verificou-se a recuperação abundante de espécies de plantas e animais, assim como outros indicadores de um ecossistema saudável.
 A cobertura florestal da Terra continua a diminuir em diversas regiões do planeta. No entanto, foi registrado um aumento no Hemisfério Norte, onde houve recuperação de ecossistemas em terras usadas para agricultura no passado. É provável que aconteça algo semelhante no Hemisfério Sul quando países pobres atingirem um nível semelhante de desenvolvimento econômico. Um relatório de 2010 concluiu que as florestas úmidas que cresceram de novo em terra agrícola abandonada têm de 40% a 70% das espécies das florestas originais. Até os orangotangos da Indonésia, que se acreditava serem capazes de sobreviver apenas em florestas virgens, foram encontrados em plantações de palmeiras e em terras degradadas.
 A natureza é tão resistente que pode se recuperar rapidamente inclusive dos impactos humanos mais nefastos. Em torno da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que explodiu em 1986, a vida selvagem floresce, mesmo com altos índices de radiação. No Atol de Bikini, local de diversos testes de bombas nucleares, o número de espécies de coral é maior hoje do que antes das explosões. O petróleo que se espalhou no Golfo do México com o desastre na plataforma Deepwater Horizon, há dois anos, foi decomposto e consumido por bactérias em um ritmo notavelmente rápido.
 Hoje, coiotes vasculham o centro de Chicago e falcões-peregrinos espantam moradores de São Francisco quando mergulham pelos cânions de arranha-céus a fim de capturar pombos para sua próxima refeição. No sudoeste dos Estados Unidos, uma salamandra rara, que consta de uma lista federal, aparece com frequência em tanques para o gado – até hoje ela não foi encontrada em nenhum outro habitat. Livros foram escritos sobre o colapso do bacalhau em Georges Bank. Dados recentes de pesca, porém, revelam que o peso corpóreo do peixe voltou aos níveis anteriores ao colapso. É duvidoso que alguém escreva um livro sobre a recuperação do bacalhau. Não pega bem diante de um público viciado em histórias de apocalipse ambiental.
 Mesmo a espécie que é o símbolo clássico da fragilidade ambiental – o urso-polar ilhado em um bloco de gelo que derrete – tem uma boa chance de sobreviver ao aquecimento global. Isso pode acontecer se as mudanças ambientais continuarem a aumentar as populações de foca-do-porto e de foca-harpa. Os ursos-polares evoluíram de ursos marrons há 200000 anos, durante um dos períodos de esfriamento da Terra. Transformaram-se em carnívoros altamente especializados, cuja dieta é baseada em focas. O destino do urso-polar depende de duas tendências opostas – do declínio do gelo no mar e do aumento exponencial da presa rica em energia para sua sobrevivência A vida na Terra é uma história de espécies que evoluem durante a adaptação a novos ambientes.
 O ideal da natureza pressupõe que haja panes do mundo ainda intocadas pelo homem, mas hoje é impossível encontrar no planeta um lugar que não tenha sido marcado pela atividade humana. Há séculos os homens promovem impactos no ambiente natural. A natureza selvagem, tão louvada pelos conservacionistas, os tais lugares intocados pelo homem, nunca existiu. Pelo menos não nos últimos 1000 anos – e possivelmente muito antes disso.
 Os efeitos da atividade humana encontram-se em cada canto da Terra. Peixes e baleias em locais remotos do Ártico estão contaminados por pesticidas químicos. Os ciclos do nitrogênio e da água são, hoje, controlados pelas pessoas – a atividade humana produz 60% do nitrogênio depositado na terra a cada ano. A humanidade se apropria de mais da metade do fluxo anual de água doce acessível. Há mais tigres em cativeiro do que em seu habitat. Cálculos estimam que, em 2050, a extração de madeira de florestas naturais entrará em declínio. Três quartos de toda a madeira utilizada no mundo serão provenientes de fazendas de reflorestamento manejadas de forma intensiva. Erosão, clima e deslizamentos de terra eram os principais fatores na movimentação de rochas e solo. Hoje, a construção de estradas e projetos grandiosos de engenharia tornaram os seres humanos rivais desses processos geológicos. Em todo o mundo, a mistura entre alterações climáticas e espécies não nativas possibilitou uma série de novos ecossistemas catalisados pela atividade humana.
 Para enfatizarem que entramos em uma nova era geológica, na qual os seres humanos dominam todos os fluxos e ciclos da ecologia e da geoquímica do planeta, os cientistas cunharam um nome para a etapa atual: antropoceno. A maioria dos habitantes do planeta, não importa de qual cultura, enxerga com bons olhos as oportunidades decorrentes do desenvolvimento de uma vida melhor do que a desgastante miséria rural. Por outro lado, a escala global dessas transformações reforçou a nostalgia dos conservacionistas e a busca por um meio ambiente selvagem e por um passado de natureza intocada. Mas o persistente foco do conservacionismo em preservar ilhas de ecossistemas do holoceno na era do antropoceno é tanto anacrônico quanto contraproducente.
 Avalie-se o declínio da população de orangotangos, atribuído à exploração intensiva de madeira de seu habitat florestal. Estudos de campo recentes sugerem que os homens matam os orangotangos para comer e vender a um ritmo muito mais severo do que se suspeitava É essa prática, não o desmatamento, o maior perigo para os orangotangos. Para salvarem essa espécie, os conservacionistas terão de enfrentar o problema da fome e da falta de renda na Indonésia. Ou seja, eles terão de aderir ao desenvolvimento humano e à exploração da natureza para atividades como agricultura ao mesmo tempo em que tentam preservar a natureza dentro dos parques.
 Os binômios do conservacionismo – crescimento ou natureza, prosperidade ou biodiversidade – marginalizaram o movimento em um planeta que, em breve, terá pelo menos 2 bilhões de habitantes a mais. No mundo em desenvolvimento, os esforços para conter os avanços econômicos e proteger florestas são injustos, se não antiéticos, quando se voltam aos 2,5 bilhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia e ao bilhão que sofre com a fome crônica. Ao colocarem pessoas contra a natureza, os conservacionistas promovem uma atmosfera em que as sociedades enxergam o meio ambiente como um inimigo. Se as pessoas não acreditarem que a conservação é do interesse delas, isso nunca será uma prioridade nas sociedades atuais. O conservacionismo precisa demonstrar como o destino da natureza e o das pessoas estão profundamente interligados – e, então, oferecer novas estratégias para promover a saúde e a prosperidade de ambos.
 Não é preciso ser pós-modernista para entender que o conceito de natureza, em oposição ao funcionamento físico e químico dos sistemas naturais, sempre foi uma construção humana, formada e concebida para fins humanos. A ideia de que a natureza "sem gente" é mais valiosa do que a natureza "com gente", assim como o retrato da natureza como frágil ou feminina, não reflete verdades atemporais, mas esquemas mentais que se modificam para se adequar aos tempos. 
Se não existe uma natureza selvagem, se a natureza é resistente, mais do que frágil, e se as pessoas são, na verdade, parte da natureza, e não os pecadores originais que causaram nossa expulsão do Éden, qual deveria ser a nova visão
do conservacionismo? Começaria por apreciar a força e a resistência da natureza e ao mesmo tempo reconhecer as muitas maneiras pelas quais dependemos dela. O conservacionismo deveria procurar apoiar e divulgar o tipo certo de desenvolvimento – um desenvolvimento projetado, ancorado em modalidades de tecnologia para aumentar a saúde e o bem-estar tanto da natureza humana quanto da natureza não humana. Em vez de execrarem o capitalismo, os conservacionistas deveriam ser parceiros das empresas num esforço baseado em ciência para integrar o valor dos benefícios da natureza em sua operação e em sua cultura. Em vez de almejar a defesa da biodiversidade pela biodiversidade, um novo conservacionismo deveria buscar melhorar os sistemas naturais que beneficiem o maior número de pessoas, especialmente as pobres. Em vez de tentar restaurar paisagens remotas a condições pré-europeias, o conservacionismo deveria avaliar suas realizações, em grande parte, por sua importância para as pessoas, inclusive as moradoras de cidades. A natureza poderia ser um jardim – não um jardim cuidadosamente aparado e rígido, mas um emaranhado de espécies e áreas selvagens em meio a terras usadas para produção de comida, extração de minerais e para a vida urbana. 
O conservacionismo está caminhando em todas essas direções, mas devagar demais, e com dedicação insuficiente para fazer dessa postura o ponto fulcral do conservacionismo do século XXI. O problema está na nossa relutância, e na relutância de muitos dos ricos apoiadores do conservacionismo, em abrir mão de velhos paradigmas.
 O conservacionismo precisa abarcar grupos marginalizados e demonizados, além de adotar como prioridade algo que se tornou um tabu nos últimos 100 anos: o desenvolvimento econômico para todos.
 O conservacionismo que conseguiremos aderindo ao desenvolvimento e à melhora do bem-estar humano quase com certeza não será o conservacionismo que foi imaginado em seus primórdios. Mas será muito mais eficaz e terá um apoio muito mais amplo em conselhos de administração de empresas e câmaras políticas, assim como em torno das mesas de cozinha.
 Nada disso visa a defender a eliminação de reservas naturais ou a interrupção dos investimentos na manutenção dessas áreas. Mas temos de admitir que um conservacionismo concentrado em erguer cercas e delimitar lugares distantes, que só alguns poucos podem realmente aproveitar, é uma proposta inviável. Proteger a biodiversidade pela biodiversidade não funcionou. Proteger uma natureza dinâmica e resiliente, situada no meio de nós, não distante, que serve de sustento para as comunidades, é o caminho para avançar. De outro modo, o conservacionismo fracassará, agarrado a seus velhos mitos.
 Peter Kareiva, conhecido como "o ambientalista inconveniente", é cientista-chefe e vice-presidente da The Nature Conservancy e membro da Academia Nacional de Ciências; Robert Lalasz é diretor de divulgação cientifica da The Nature Conservancy; Michelle Marvier é chefe do Departamento de Estudos e Ciências Ambientais da Universidade Santa Clara.